sábado, 8 de setembro de 2012


Numa praia selvagem na Ilha do Cardoso
a pororoca pari uma miragem
& meus pés afundam na areia

enquanto numa montanha na Suíça
Nietzsche assombra visitantes
com uma ave de rapina no ombro

ou num éden qualquer
a raposa soletra o   c a o s
& o anti-cristo faz chover bigornas


quinta-feira, 6 de setembro de 2012


[...]

numa praia selvagem em Trindade
o lilás lambuza o horizonte
& a cachoeira sussurra um duende

enquanto numa costa qualquer
Pierrot le fou recita Rimbaud
& a sombra fulmina o corvo

como agora no Taiti
Gauguin dança cosmologias
& Oviri espreita ao fundo


segunda-feira, 3 de setembro de 2012


Numa praia selvagem na Barra do Una
a brisa penetra meu ventre
& vísceras saem em debandada

no momento em que no Hawaii
McKenna escorre DMT
& um Óvni fornica seu olho

enquanto num lago em Moritzburg
banhistas beliscam orgias
& Heckel goteja uma tela


quinta-feira, 30 de agosto de 2012


[após “Des-continuidades”, de Vera Sala.... teclado pulula desconcertado sem atrever conter o fluxo do corpo na palavra] 

domingo, 26 de agosto de 2012

PoemaCine

Sempre me intrigaram as relações entre poesia & cinema. Revendo a experiência do “poemecine” de Man Ray tive alguns lampejos.
Em L’Étoile de Mer  (1928), Ray dá livre curso às imagens oníricas do poema homônimo de Robert Desnos - que inclusive figura no filme como ator. Os versos filmados ganham uma visualidade muito diferente das letras estáticas impressas no papel. Sente-se a influência do roteiro para peça teatral La Place de l’etoile, de Desnos. O encontro insólito de personagens em devaneio inconsciente coaduna com o encontro entre poesia, teatro e cinema. Chama atenção o efeito de lente que Ray utiliza para assemelhar as imagens a pinturas em movimento.
É um poema-cinema não só por utilizar um poema como disparador. É poético pela irrupção de imagens ao acaso, despidas de qualquer foco narrativo convencional. É linguagem do inconsciente que transborda num fluxo incontido de associações inusitadas. O fato de grande parte do cinema atual se ater à narrativa linear e ao vaivém de tramas e personagens, o coloca muito próximo da linguagem da prosa.
E Ray não para por aí. São frequentes as esculturas em dança, deixando antever perspectivas inesperadas – especialmente no jogo de sombras que costuma utilizar. Outras vezes são sombras distorcidas e a dança veloz de objetos que dão efeitos vertiginosos – aqueles mesmos que Stan Brakhage iria trabalhar mais tarde, já com a efusão de cores, muito influenciado pelo amigo e poeta Michael McClure.
O que parecia impulsionar o experimentalismo do cinema de Ray é o escorrer de imagens em movimento, que permitiam relações inusitadas entre poesia, teatro, fotografia, pintura, escultura e dança. Se coloca todas linguagens em movimento também as retira dos redutos fechados da fragmentação das expressões artísticas em especialidades. O que importa é mesmo o potencial das imagens que desconhece os limites da expressão, conduzindo a uma combinação incandescente que revela novas possibilidades de criação.